Entrevista concedida a George Wickes para a Paris Review, 1961.
Tradução: Hamilton Fernandes
A ARTE DA FICÇÃO nº28
Henry Miller
Em 1934, Henry Miller, então com 42 anos e vivendo em Paris, publicou seu primeiro livro. Em 1961, o livro foi finalmente publicado em sua terra natal, onde instantaneamente tornou-se um “best-seller” e causou grande polêmica. No momento as águas têm sido tão enlameadas pela controvérsia da censura, pornografia e obscenidade que o livro se tornou o foco das atenções.
Sua vida está escrita em uma série de narrativas picarescas na primeira pessoa do presente histórico: os primeiros anos no Brooklyn, em Primavera Negra; sua luta para encontrar a si mesmo durante os anos 20, em Trópico de Capricórnio e os três volumes da Crucificação Encarnada; suas aventuras em Paris na década de 30, em Trópico de Câncer.
Em 1939, ele foi à Grécia para visitar Lawrence Durrell; sua breve estada forneceu as bases narrativas para O Colosso de Marússia. Interrompido pela guerra e forçado a voltar à América, ele registrou a odisséia de um ano de duração em Pesadelo Refrigerado.Foi então em 1944 que se estabeleceu num magnífico trecho da costa da Califórnia, levando a vida descrita em As laranjas de Hieronymus Bosch. Agora que seu nome transformou Big Sur em um centro da peregrinação, ele resolveu dar o fora e continuar.
Aos 70 anos, Henry Miller se parece mais com um monge budista que “engoliu um canário”. À primeira impressão, ele é um ser humano cômico e afetuoso. Apesar da cabeça calva com um halo de cabelos brancos, não existe nada de velho nele. Sua figura, surpreendentemente frágil, é a de um jovem; todos os seus movimentos e gestos são juvenis.
Sua voz é magicamente cativante, suave, ressonante, mas bastante grave com um grande alcance e variedade de modulações; ele não é tão inconsciente como parece ser a respeito de sua maneira de falar musical. Fala um inglês do Brooklyn modificado, frequentemente pontuado por pausas retóricas como “Don’t you see?” e “You Know?” e diminuindo a voz para uma série de sons “yas, yas... hmm... hmm... yas... hm... hm”. Para se entender melhor e honestamente o homem, deve-se escutar as gravações de sua voz.
A entrevista foi realizada em setembro de 1961, em Londres.
– George Wickes, 1962
Entrevistador
Antes de tudo, você poderia explicar como começa de fato a escrever? Aponta lápis como Hemingway ou algo do tipo para esquentar os motores?
Henry Miller
Não, nada desse tipo. Geralmente começo a trabalhar logo após o café da manhã. Sento-me imediatamente diante da máquina de escrever. Se me dou conta de que não consigo escrever, desisto. Mas não, não há nenhuma regra ou estágios preparatórios.
Entrevistador
Existem certos momentos do dia ou certos dias em que você trabalha melhor?
Henry Miller
Hoje eu prefiro a manhã, e apenas por duas ou três horas. No começo, eu costumava escrever da meia-noite até o amanhecer, mas isso foi bem no começo. Mesmo depois que eu estava em Paris, achava muito melhor trabalhar pela manhã. Mas nessa época eu costumava escrever por longas horas. Trabalhava de manhã, tirava uma soneca depois do almoço, levantava e escrevia novamente, às vezes até a meia-noite. Nos últimos dez ou quinze anos, percebi que não é necessário trabalhar tanto assim. É, de fato, ruim. Você esvazia o reservatório.
Entrevistador
Você diria que escreve rapidamente? Perlès disse no livro “Meu Amigo Henry Miller” que você é um dos mais rápidos datilógrafos que ele conheceu.
Miller
Sim, muitas pessoas dizem isso. Devo fazer um grande estardalhaço quando datilografo. Acho que escrevo rapidamente. Mas isso varia. Posso escrever rapidamente por um tempo, e então chega o momento em que eu emperro e gasto uma hora em uma página. Mas isso é muito raro, porque quando percebo que estou atolando, pulo uma parte difícil e continuo, e volto a essa parte um outro dia, com a cabeça fresca.