entrevista Henry Miller part.2
Entrevistador Quanto tempo você diria que levou para escrever um dos seus primeiros livros?
Miller Não saberia responder. Eu nunca consegui prever quanto tempo um livro levaria: mesmo agora quando eu planejo algo, não saberia lhe dizer. E de certa maneira é falso acreditar nas datas que um autor diz ter começado e terminado um livro. Não significa que ele estava escrevendo constantemente o livro na época. Pegue Sexus ou toda a Crucificação Encarnada. Acho que comecei a escrevê-la em 1940 e aqui estou eu ainda trabalhando nela. Bem, seria absurdo dizer que eu estive trabalhando nesses livros durante todo esse tempo. Eu não cheguei a nem pensar neles por anos. Então, como posso falar sobre o tempo que demoro para escrever meus livros?
Entrevistador Sei que você reescreveu Trópico de Câncer diversas vezes e essa obra deu mais trabalho para você do que todas as outras, mas claro, foi o início. Estava pensando se a escrita não se tornou mais fácil para você hoje em dia?
Miller Essas questões não fazem sentido. O que importa quanto tempo se leva para escrever um livro? Se você perguntasse a Simenon, ele diria com precisão. Acho que ele demora de quatro a sete semanas. Ele sabe que pode contar com isso. Seus livros normalmente têm uma determinada extensão. Além disso, ele é uma dessas raras exceções, um homem que quando diz “Agora vou escrever este livro”, entrega-se completamente ao trabalho. Ele se isola e não pensa e faz nada além disso. Bem, minha vida nunca foi assim. Tenho muitas outras coisas para fazer enquanto estou escrevendo.
Entrevistador Você edita ou muda muito o que escreve?
Miller Varia muito. Nunca faço qualquer correção ou revisão durante o processo de escrita. Digamos que escrevo algo de qualquer maneira e então depois que a situação esfria – deixo o texto descansar por um tempo, talvez um ou dois meses – e vejo-o com novos olhos. E então me divirto. Começo a trabalhar [no texto] com o machado. Mas nem sempre é assim. Às vezes, surge quase do jeito que eu queria.
Entrevistador Como é seu processo de revisão? Miller
Quando estou revisando uso pena e tinta para fazer mudanças, riscar, inserir. O manuscrito fica maravilhoso depois disso, como um Balzac. Então, eu datilografo novamente e nesse processo faço mais mudanças. Prefiro eu mesmo datilografar novamente porque mesmo quando acho que fiz todas as mudanças que queria, o mero trabalho mecânico de tocar as teclas aguça meus pensamentos e eu me encontro revisando enquanto estou fazendo o texto final.
Entrevistador Quer dizer que existe uma relação entre você e a máquina?
Miller Sim, de certo modo, a máquina atua como um estímulo; é algo cooperativo. Entrevistador Em Os livros da minha vida você diz que a maioria dos escritores e pintores trabalha numa situação desconfortável. Você acha que isso ajuda? Miller Sim. Chego a acreditar que a última coisa que um escritor ou qualquer artista pensa é em se sentir confortável enquanto está trabalhando. Talvez o desconforto sirva de ajuda e estímulo. Homens que podem se dar ao luxo de trabalhar em condições melhores, muitas vezes escolhem trabalhar sob condições miseráveis. Entrevistador Não são esses desconfortos às vezes psicológicos? Pegue o caso de Dostoievski... Miller Eu não sei. Sei que Dostoievski estava sempre em um estado miserável, mas você não pode dizer que ele escolheu desconfortos psicológicos deliberadamente. Não, duvido muito. Não acho que alguém escolhe essas coisas, a menos que seja inconscientemente. Acredito que muitos escritores têm o que muitos chamariam de uma natureza demoníaca. Eles estão sempre com problemas, você sabe, e não somente enquanto estão escrevendo ou porque estão escrevendo, mas em todos os aspectos de suas vidas, com o casamento, amor, negócios, dinheiro, tudo. Está tudo interligado, tudo parte e parcela da mesma coisa. É um aspecto da personalidade criativa. Nem todas as personalidades criativas são assim, mas algumas são.
Escrito por agulhasregistros às 00h35
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por LeonardoH (fotógrafo do Coletivo Quase Atos)
 
Escrito por agulhasregistros às 00h20
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entrevista Henry Miller
Entrevista concedida a George Wickes para a Paris Review, 1961. Tradução: Hamilton Fernandes
A ARTE DA FICÇÃO nº28 Henry Miller Em 1934, Henry Miller, então com 42 anos e vivendo em Paris, publicou seu primeiro livro. Em 1961, o livro foi finalmente publicado em sua terra natal, onde instantaneamente tornou-se um “best-seller” e causou grande polêmica. No momento as águas têm sido tão enlameadas pela controvérsia da censura, pornografia e obscenidade que o livro se tornou o foco das atenções. Sua vida está escrita em uma série de narrativas picarescas na primeira pessoa do presente histórico: os primeiros anos no Brooklyn, em Primavera Negra; sua luta para encontrar a si mesmo durante os anos 20, em Trópico de Capricórnio e os três volumes da Crucificação Encarnada; suas aventuras em Paris na década de 30, em Trópico de Câncer. Em 1939, ele foi à Grécia para visitar Lawrence Durrell; sua breve estada forneceu as bases narrativas para O Colosso de Marússia. Interrompido pela guerra e forçado a voltar à América, ele registrou a odisséia de um ano de duração em Pesadelo Refrigerado. Foi então em 1944 que se estabeleceu num magnífico trecho da costa da Califórnia, levando a vida descrita em As laranjas de Hieronymus Bosch. Agora que seu nome transformou Big Sur em um centro da peregrinação, ele resolveu dar o fora e continuar. Aos 70 anos, Henry Miller se parece mais com um monge budista que “engoliu um canário”. À primeira impressão, ele é um ser humano cômico e afetuoso. Apesar da cabeça calva com um halo de cabelos brancos, não existe nada de velho nele. Sua figura, surpreendentemente frágil, é a de um jovem; todos os seus movimentos e gestos são juvenis. Sua voz é magicamente cativante, suave, ressonante, mas bastante grave com um grande alcance e variedade de modulações; ele não é tão inconsciente como parece ser a respeito de sua maneira de falar musical. Fala um inglês do Brooklyn modificado, frequentemente pontuado por pausas retóricas como “Don’t you see?” e “You Know?” e diminuindo a voz para uma série de sons “yas, yas... hmm... hmm... yas... hm... hm”. Para se entender melhor e honestamente o homem, deve-se escutar as gravações de sua voz. A entrevista foi realizada em setembro de 1961, em Londres. – George Wickes, 1962 Entrevistador Antes de tudo, você poderia explicar como começa de fato a escrever? Aponta lápis como Hemingway ou algo do tipo para esquentar os motores?
Henry Miller Não, nada desse tipo. Geralmente começo a trabalhar logo após o café da manhã. Sento-me imediatamente diante da máquina de escrever. Se me dou conta de que não consigo escrever, desisto. Mas não, não há nenhuma regra ou estágios preparatórios.
Entrevistador Existem certos momentos do dia ou certos dias em que você trabalha melhor?
Henry Miller Hoje eu prefiro a manhã, e apenas por duas ou três horas. No começo, eu costumava escrever da meia-noite até o amanhecer, mas isso foi bem no começo. Mesmo depois que eu estava em Paris, achava muito melhor trabalhar pela manhã. Mas nessa época eu costumava escrever por longas horas. Trabalhava de manhã, tirava uma soneca depois do almoço, levantava e escrevia novamente, às vezes até a meia-noite. Nos últimos dez ou quinze anos, percebi que não é necessário trabalhar tanto assim. É, de fato, ruim. Você esvazia o reservatório.
Entrevistador Você diria que escreve rapidamente? Perlès disse no livro “Meu Amigo Henry Miller” que você é um dos mais rápidos datilógrafos que ele conheceu.
Miller Sim, muitas pessoas dizem isso. Devo fazer um grande estardalhaço quando datilografo. Acho que escrevo rapidamente. Mas isso varia. Posso escrever rapidamente por um tempo, e então chega o momento em que eu emperro e gasto uma hora em uma página. Mas isso é muito raro, porque quando percebo que estou atolando, pulo uma parte difícil e continuo, e volto a essa parte um outro dia, com a cabeça fresca.

Escrito por agulhasregistros às 01h54
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fotografia por Man Ray
  Man Ray Marquise Casati 1922 Centre Pompidou © Man Ray Trust / ADAGP, Paris and DACS, London 2008 Photo CNAC / MNAM Dist.RMN / © Adam Rzepka
Escrito por agulhasregistros às 03h17
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INTEIRA Essa falsificação em transe nosso monstro que vale a pena seguir chamá-lo e vê-lo nesse corpo, maltratado pela demora é possível que essa autodestruição nos canse um dia – agora não a possessão é um consolo. para aqueles que se crêem vivos pessoas docemente crispadas nossa entidade comível pra dor ser justa sobre a lua de nossa escolha o mundo continuará como reação. escurece rápido e o Deus morre quando pisamos “Respira pelos coágulos, meu bem” nunca mais esses desfiladeiros baratos desde a infância mais tenra até os espíritos carinhosos coquetéis explorados num amanhecer virulento cheio de vozes olá a injustiça do corpo o que atravessa cai em paisagem o que nos atravessa nos olha chamamos Manassés Diego
Escrito por agulhasregistros às 02h34
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